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Crítica – Pelo Malo

by on maio 19, 2014
 

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A cena de abertura de Pelo Malo (lançado em 2013 na Venezuela e no Brasil em 2014) revela uma mulher muito relutante, Marta, limpando um apartamento de luxo com a ajuda de seu filho de nove anos, Junior, que foi arrastado junto para o trabalho já que Marta não tem com quem deixa-lo e muito menos dinheiro para uma babá. A empregada está irritada e sente que esse não é um emprego digno, mas faz de qualquer modo, pois é o único jeito dela segurar as pontas desde que foi demitida de seu trabalho como segurança. Marta vive com suas duas crianças em um apartamento de um conjunto de condomínios em péssimas condições que faz parte do projeto de moradia de Caracas. Ela passa dificuldades todos os dias para simplesmente conseguir juntar o dinheiro necessário para alimentar sua família.

Mas o foco principal de Pelo Malo não é Marta, apesar dela ter muito destaque, mas sim Junior e seu cabelo encaracolado. O garoto quer ter seu cabelo liso para aparecer bonito nas fotos do anuário de sua turma, igual a um cantor famoso que admira. Esse simples dilema o coloca em conflito direto com sua mãe viúva. A mãe, que já esta cheia de problemas para manter a família, não consegue tolerar a fixação de Junior com sua aparência. Quanto mais Junior tenta se embelezar, para assim sua mãe gostar mais dele, mais a genitora rejeita o garoto. Marta desconfia das tendências sexuais do filho, algo que só corrobora com a raiva constante que ela possui. A melhor amiga do garoto (Maria Emilia Sulbaran) é uma menina boca suja, um dos destaques do filme, e Junior prefere brincar com as bonecas dela a ir divertir-se com os outros garotos. Marta mal consegue disfarça seu ódio pelo seu filho mais velho e foca todo seu carinho no bebê. A avó paterna, que tem motivos ocultos para ajudar o garoto, tenta auxiliar o menino com o cabelo, contudo o resultado também gera conflitos entre o jovem e sua vó. A avó, presenciando o descaso, pede a Marta para cuidar do garoto, mas Marta nega o pedido e ainda pretende por um fim definitivo nessa mania do jovem.

Esse filme trata do racismo mal-disfarçado em sociedades mestiças, como a brasileira e a venezuelana, de onde veio à obra. Junior luta contra seu “cabelo ruim”, tradução literal do titulo, e esse pequeno ato expõe inúmeros temas presentes com força, mas não exclusivamente, na América Latina: racismo, orientação sexual, discriminação por gênero e condição social. Tudo isso se confunde nessa história desse garoto negro com “cabelo ruim”. Todo esse drama é mostrado numa Venezuela instável. A doença de Hugo Chávez, que logo se mostrará fatal, é o pano de fundo do caos em que vive o país. Esse cenário politico em mudança rápida é algo que coloca essa família, e muitas outras, com um futuro incerto e que afeta diretamente as crenças e valores das pessoas.

O drama desse filme é extremamente bem trabalhado, pois mostra a futilidade da mãe tentar combater algo que o garoto mal compreende e que ela, com valores ultrapassadas, julga errado. A atuação de Samantha Castillo como Marta é realista e cruel e só é superada pela performance de Samuel Lange Zabrina como o confuso Junior. Apesar de a competente diretora Mariana Rondón ter um roteiro, curiosamente ela nunca o mostrou para o elenco, preferindo trabalhar com eles por improvisação. O resultado são atuações naturais e fortes.  A fotografia de Micaela Cajahuaringa é algo intimo e ameaçador, algo que reflete perfeitamente o conflito de Junior de tentar fazer parte de algo.

Embora vizinha, e sempre próxima dos brasileiros através das notícias, a Venezuela é muito distante do Brasil. Quase nada sabemos de seu cinema, de sua cultura. “Para começar a entender meu filme, é bom ir logo dizendo que, se a indústria do petróleo é a maior fonte de divisas do país, a segunda é justamente a indústria da beleza, e num segmento particular. A Venezuela é um país mestiço. Muitos de nós temos o cabelo ruim. Homens e mulheres pagam caro para alisar os cabelos ou para manter dentro dos limites o ‘pelo malo’ que caracteriza nossa negritude. Aceitar o cabelo como é significa reconhecer-se a si mesmo e ao outro, e o problema é que o olhar do outro pode ser violento.” define a diretora Mariana Rondón.

O que é de se impressionar é o quanto de empatia Rondón colocou nesses personagens. Mesmo a obra só tendo 93 minutos, esse filme é algo que passa rapidamente, não é nem um pouco esquecível. Os momentos finais de Pelo Malo são dos mais fortes que você verá esse ano. Isso é cinema de qualidade, sério, não deixe de conferir.

Nota:  5 Stars (5 / 5)

Confira também as críticas de Sob a Pele, Amante a Domicílio, Quando Eu Era Vivo e A Grande Vitória

Trailer desse filme polêmico

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