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Crítica – Noé (2014)

by on março 28, 2014
 

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“Noé” é um filme que “nasceu” polêmico. O longa já foi banido nos Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Kuwait por contradizer o tabu do islamismo de representar um profeta. Sem contar que tem os ateístas que não irão ver por ser baseado numa obra bíblica. E de outro lado os cristãos que não querem ver a obra por ela não ser totalmente fiel a Bíblia. Só para constar estou falando de extremistas dos dois lados. Se nem Jesus agradou a todos, não será esse filme que conseguirá, não é mesmo? Russel Crowe já deu uma entrevista falando que eles esperavam a controvérsia. Se bem que onde ele diz controvérsia, eu vejo publicidade de graça.  De qualquer modo, deixando esse embate de lado, vamos ver se “Noé” não afunda, trocadilho infame intencional.

O filme “Noé” é inspirado no criacionismo, obviamente, e fala o que teria ocorrido depois da expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden e após Caim, filho de Adão e Eva, assassinar seu irmão Abel. A linhagem de Caim criou cidades decadentes e que exploravam os recursos naturais sem nenhuma consciência. Já a linhagem de Set, o terceiro filho de Adão e Eva, vivia em paz e harmonia. Chegou um momento que os herdeiros de Caim praticamente eliminaram os herdeiros de Set, até que um dos únicos remanescentes foi um jovem Noé, que presencia a morte do próprio pai nas mãos de um dos descendentes de Caim. Anos depois, Noé (agora vivido por Russel Crowe) e sua esposa Noéma (Jennifer Connelly) tentam ser bons pais e passar os nobres valores para seus filhos. Numa certa noite, Noé tem uma visão de um terrível diluvio. Atordoado, ele visita seu avô Matusalém (Anthony Hopkins) que lhe dá um chá “místico” que revela a Noé sua missão. Ele tem que construir uma arca para salvar os animais do mundo enquanto o Criador (que não é o Morgan Freeman) limpa o planeta da impureza dos humanos com um grande diluvio. Tarefa difícil e que fica ainda mais complexa quando o terrível guerreiro Tubal-caim (Ray Winstone) descobre o plano de Noé e decide tomar a arca para si e seus soldados. Para cumprir sua missão Noé precisará de uma ajuda mais do que humana, e sim do auxilio de algo, ou seres, divinos.

Russel Crowe é o ponto mais forte da produção. Darren Aronfsky, o diretor dessa polêmica obra, é conhecido por fazer filmes sobre personagens obsessivos e autodestrutivos, vide Pi e Cisne Negro. Não é nenhuma surpresa que Noé de sua versão seja um homem de boas intenções, mas tão obcecado que seus atos podem leva-lo a loucura. Crowe interpreta Noé sempre de maneira intensa, um devoto fanático, mantendo uma convicção inabalável em todos os momentos, mesmo quando esse faz atos discutíveis, pois em sua mente é tudo em nome do Criador. Aliás, fica uma curiosidade aqui, para um filme baseado no Velho Testamento nunca falar o termo Deus é algo um tanto estranho. Sei que é o medo de ofender alguém, mas ao abordar uma obra desse tipo você com certeza já irritou um bocado de gente, querendo ou não. Mas, voltando aos personagens, todos os outros podem ser resumidos em estereótipos bobos (“leal”, “amável”, “duas-caras/traíra”), sem nenhuma complexidade, deixando pouco espaço para os demais atores explorarem seus papeis.

O que decepciona nesse novo trabalho de Darren Aronofsky é que no final das contas tudo é um tanto confuso. Ele fez várias mudanças na história bíblica, o que numa adaptação é aceitável, mas suas adições na maior parte parecem que estão lá só para encher linguiça. Ok ter criaturas e momentos “mágicos” na narrativa, mas se essas cenas sacrificam o desenvolvimento de personagens, isso me parece uma troca um tanto errada. Sem contar que o filme demora um pouco para engrenar, mas quando chega no momento da arca, a história deslancha.

Trabalhando com colaboradores de longa data, o diretor de fotografia Matthew Libatique e o compositor Clint Mansell, que compôs uma bela trilha para essa obra, Aronofsky nos mostra o mundo de Noé como um lugar lúgubre, frio e sem perdão. É um filme apocalíptico, tendo o clima costumeiro dessas produções. Os elementos fantásticos na produção, além do diluvio e outros detalhes que já havia na história original, parecem estar fora do lugar. Por exemplo, apesar de a ideia de anjos de pedras, os Guardiões, ser visualmente interessante, como já dito anteriormente sobre as adições, acaba sobrando na obra e sacrifica o desenvolvimento de outras partes.

No fim das contas esse é um filme estranho. O Noé de Crowe é um personagem fascinante e a atuação dele nesse papel mostra que ele é realmente um mestre em seu oficio apesar de um deslize ou outros (coff, Javert em Os Miseráveis, coff). O problema da obra é querer ser épico demais a todo o momento e desenvolver apenas seu protagonista. Claro que há uma boa sequência com Noéma, contudo é preciso mais do que uma boa cena para dar peso aos personagens. Sem contar que Tubal e seus guerreiros são retratados de um maneira meio cartunesca e boba. A mensagem atemporal de preservação do planeta é feita de um modo não muito chato e não tão descarada, então funciona bem. Vale a pena uma conferida só pela abordagem ousada nessa história bíblica e se você for paciente,  pois esse filme exige que você não tenha muita pressa, mas não espere nada demais.

Nota: 3/5

Trailer de “Noé”. E aproveitando o espaço final. uma reclamação besta. Só eu fiquei incomodado com os dentes mega brancos dos atores e a sujeira superficial? Pô naquela época o bagulho era loco, o povo podia tá um pouco mais acabado.

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