0 comentários

Crítica super atrasada – Qual é a de “Spotlight”? O ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2016 é mesmo um bom filme?

by on junho 15, 2016
 

Compartilhe!Share on Facebook32Tweet about this on TwitterShare on Google+0

That’s me in the corner/ That’s me in the spotlight/ Losing my religion – “Losing My Religion”, R.E.M

“Spotlight – Segredos Revelados” é o “Todos os Homens do Presidente” do novo milênio. Um filme baseado em fatos reais que mostra como é feito um bom jornalismo investigativo e a importância da existência desses profissionais. “Spotlight” mostra como a equipe Spotlight, grupo de jornalistas investigativos do Boston Globe, que possuem uma grande autonomia do resto do jornal, apurou um assunto polêmico que todos na cidade de Boston queriam deixar debaixo do tapete: a molestação infantil feita por padres de paróquias locais e o acobertamento da arquidiocese católica desses crimes hediondos. Esse inquérito de um assunto que todos ignoravam, mostra a corrupção e o poder da Igreja Católica e demonstra que o problema real se encontra nas raízes dessa organização religiosa. E a pedofilia envolvendo sacerdotes é um grande infortúnio que vai muito além de Boston, do estado de Massachusetts ou dos Estados Unidos. É algo que envolve o mundo todo, como o filme deixa extremamente claro em seu término. Esse é um longa pesado, com um tema difícil, mas que deve ser visto por todos, ainda mais devido as grandes atuações do elenco principal composto por Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams e Liev Schreiber.

Esse longa te mantém compenetrado mesmo não tendo grandes sequências de ação ou cenas de tirar o folego. O cineasta Tom McCarthy não apela para o drama excessivo e expõe com competência a linha de raciocínio dos personagens. O roteiro e os diálogos são naturais e com ótima fluidez, soando bem realistas. A obra não tem medo de abordar assuntos tristes e mórbidos, algo normalmente evitado por grandes produções, entretanto McCarthy viu que era necessário tratar o assunto com a devida seriedade. “Spotlight” é uma obra prima da sutileza, é devastar e silencioso. Ele tem um ritmo mais lento, deixa as cenas respirar e o impacto atingir totalmente o espectador. Não há vilões ou heróis. Todos têm sua parcela de culpa nessa tragédia. Ao sair do cinema você sairá se perguntando, como isso pode acontecer? E a triste resposta é simples: fácil, todos permitiram isso acontecer.

Esse filme possui uma enorme profundidade, mesmo sendo tão direto ao ponto. É impressionante como uma obra pode abordar tão bem tantos personagens e um tópico tão pesado em um período tão curto. E vale frisar que o principal destaque de “Spotlight” é não ser uma produção manipulativa ou emotiva, o pecado primordial de muitos filmes baseados em fatos reais.

89939c03d003584d08223def2e25cef1

O tanto que o diretor Tom McCarthy se esforçou para passar o tom de autenticidade da época em que ocorre os eventos de “Spotlight” é algo impressionante. Você realmente irá se se sentir na Boston do começo dos anos 2000. Mas são apenas nas roupas, nos outdoors, nos carros ou nos celulares que você verá essa preocupação com detalhes. Michael Keaton, por exemplo, interprete do protagonista Walter Robinson, pesquisou tudo sobre esse jornalista que ele interpreta no filme, fosse material escrito, áudio ou vídeo. Antes de encontrar o Walter Robinson real, Keaton viveu perto da casa do sujeito sem o conhecimento do mesmo. Quando Michael Keaton finalmente encontrou a figura e fez uma imitação do indivíduo, Robinson ficou assustadíssimo. Segundo o verdadeiro Walter Robinson, se Michael Keaton roubasse um banco, a polícia iria prender ele, e não o ator. E não foi só Keaton que se aprofundou tanto em seu personagem. O verdadeiro Michael Rezendes elogiou muito seu interprete no filme, Mark Ruffalo. Eles tiveram convívio constante durante cinco meses, e para Rezendes esse período de sua vida foi como “estar vivendo constantemente em uma divertida casa de espelhos”.

Algumas pessoas podem ficar frustradas com o ritmo lento da produção. No entanto, é algo necessário para absorção das informações e para ficha cair da maneira adequada.  Só para reforçar, “Spotlight” é um filme sóbrio, sério, despretensioso, sem firulas, direto ao ponto, sem cores supersaturadas ou barulhos bombásticos. Ele não busca reinventar a rodar ou ser um blockbuster.

“Spotlight – Segredos Revelados” é um exercício de modéstia, algo raro em Hollywood, de dar destaque apenas ao que interessa, a história e a mensagem. E desse modo sem rodeios e franco, a película consegue capturar a atenção do público durante duas horas, mostrando o árduo caminho do verdadeiro jornalismo investigativo. Isso tudo graças ao excelente elenco, claro. A ironia de ter um elenco tão afinado em um filme como esse é que nenhuma performance se sobressai a outra. Os atores têm o privilégio de darem vida a um dos melhores e mais urgentes roteiros dos últimos tempos. Uma história que busca denunciar os podres de uma organização tão grande e influente como a Igreja Católica não é missão para qualquer um, e os roteiristas Josh Singer e Tom McCarthy condensam bem o trabalho dos verdadeiros jornalistas da Spotlight nessa produção. Não foi por acaso que eles ganharam o Oscar de Melhor Roteiro Original. O roteiro desse filme é como ver duas horas da saudosa série Wire. Para quem gosta, é o que há.

Muitos argumentam que esse filme devia ser um documentário, o que eu discordo totalmente. Sendo uma obra ficcional baseada em fatos reais, a mensagem é atemporal e mantém o holofote em cima dos padres que ainda praticam pedofilia e não vieram à tona. Sem contar que evita problemas com advogados e permite o público ficar sabendo que essa tragédia infelizmente é um problema constante e uma posição mais ferrenha e efetiva da Igreja Católica contra esses atos deve ser cobrada sempre.

Talvez você ache que “Spotlight – Segredos Revelados” não deveria ter ganho o Oscar de Melhor Filme de 2016. Ok, cada um tem sua opinião, apesar que para mim a vitória foi justa, já que “O Regresso”, seu principal concorrente, focava praticamente apenas no aspecto técnico, o que agrada os críticos mas afasta o público. Contudo, é inegável que essa é uma ótima produção e que divulga um problema que deve ser resolvido para ontem. Dê uma chance para esse filme se ainda não viu. Você não irá se arrepender. “Spotlight – Segredos Revelados” é uma ótima obra do início ou fim, que não foge da briga e será lembrada por muitos e muitos anos.

Trailer de “Spotlight: Segredos Revelados”

Compartilhe!Share on Facebook32Tweet about this on TwitterShare on Google+0