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Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 02 – O Jogo da Imitação e O Grande Hotel Budapeste

by on janeiro 24, 2015
 

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Continuámos a analisar o filmes que concorrem a categoria de Melhor Filme (e Foxcatcher, que não está concorrendo nessa categoria, mas deveria). E agora vamos a mais dois concorrente ao prêmio de Melhor Filme do Ano em 2015.

O Jogo da Imitação

 

“O Jogo da Imitação” tem uma briga interna de duas histórias incríveis dentro do próprio filme. De um lado temos a incrível conquista da quebra do código secreto dos alemães, a famigerada máquina Enigma, acontecimento que o próprio Winston Churchill dizia que era a chave para vencer a Segunda Guerra Mundial. Do outro temos a história do sujeito responsável pelo feito, o peculiar Alan Turing, que os realizadores do filme, obviamente, também queriam dar ênfase. Será que o longa dá conta de conciliar essas duas narrativas em um mesmo filme?

Quebrar o código nazista é algo de extrema urgência. A Inglaterra está perdendo a guerra, e o único homem com alguma possibilidade de quebrar o código, Turing, é tão estranho que ele acaba alienando todos em sua volta. É a estreia de Benedict Cumberbatch (Sherlock) num papel principal em um grande lançamento cinematográfico, e a genialidade de Cumberbatch tão conhecida no seriado de um certo detetive britânico, pode ser vista em toda sua intensidade nas telonas. Ninguém melhor do que Cumberbatch para dar vida a um gênio que vive à deriva da sociedade. Quando Alan se apresenta ao governo como o melhor matemático do país, graças a performance de Benedict, nós acreditamos sem pestanejar. Mais que justa a indicação a Melhor Ator para esse jovem e talentoso ator.

A história da máquina Enigma, que permaneceu em segredo por décadas, é extraordinária. Os nazistas usaram essa máquina de encriptação que possuía 159 trilhões de possíveis configurações. Eles mudavam seus códigos de encriptação à meia noite de todo dia. Sim, todo santo dia. Para descobrir todas as variações levaria para um ser humano mais de 20 milhões de anos. Tenso, não? Foi a genialidade de Turing que viu que era necessária uma máquina que fosse capaz de decifrar todas essas combinações em uma grande velocidade. Enquanto seus colegas tentavam quebrar o código com papel e caneta, Turing inventou um computador. Isso na década de 50.

A história pessoal de Turing merece toda atenção, apesar de não ser tão urgente quanto a quebra do código. Ele é um compulsivo-obsessivo e que provavelmente possui a Síndrome de Asperger (dificuldades significativas na interação social e comunicação não-verbal, além de padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos). E, para completar, ele é homossexual, o que na época, 1952, não era algo muito bem visto. Complicado, não?

Outro personagem de destaque no filme é Joan Clarke, vivida por Keira Knightley. Ela é a mulher entre os homens, mais inteligente que muitos deles, emancipada e decidida. Ela traz um calor necessário para o longa e se torna uma grande amiga para Turing, amizade que o ajuda a se entrosar com a equipe. O que alguns podem ver como um recurso barato de roteiro, ela ser a ponte entre o matemático antissocial e o resto da equipe, é algo mais do que compreensível, ainda mais que o Alan Turing não era uma pessoa fácil.

“O Jogo da Imitação” não é mostrado de forma cronológica, ou seja, o roteirista Graham Moore decidiu misturar as ordens dos fatos. E mesmo a vida pessoal de Turing sendo muito interessante, o filme perde um pouco de ritmo ao voltarmos ao passado do protagonista quando o processo de quebra de código se intensifica. Não estraga o filme, contudo faz as coisas não terem o impacto ideal. Se o espectador visse os acontecimentos para a quebra do código num ritmo mais “realista”, linear, sentiríamos a real emergência da situação. Resumindo, uma linha de tempo mais padrão poderia ser mais interessante nessa produção. A direção de Morten Tyldum (Headhunters) humaniza o protagonista, mas às vezes perde a mão no ritmo do longa como um todo. Contudo, no fim das contas, o filme é acertado e funciona.

O longa bate nas mesmas teclas o tempo todo, sendo um tanto repetitivo (se prepara para ouvir “Aqueles de quem menos esperamos fazem as coisas que nunca imaginamos” um bocado de vezes). Contudo, a grande interpretação de Cumberbatch carrega a obra nas costas. O preconceito apagou a genialidade de Turing por muitos anos, mas agora os feitos desse gênio britânico vêm à tona. Sendo um drama biográfico e histórico, não é à toa que está concorrendo ao Oscar. Um bom filme que faz jus a essa figura injustiçada. E, como dizem, antes tarde do que nunca.

Nota: 4 Stars (4 / 5)

 

 

O Grande Hotel Budapeste

 

Lançado no meio do ano passado, tudo o que já deveria ter falado sobre esse grande filme, que concorre em nove categorias do Oscar, incluindo a de Melhor Filme, já foi dito, certo? Bem, vou dar meu palpite sobre esse filme que remonta uma Europa de tradição decadente no período entre guerras, só para constar então.

Do começo ao fim o cineasta Wes Anderson mostra que está trabalhando com um nível de sofisticação, vocabulário e estrutura nada comuns em filmes centrados em narrações. O cara é fora do eixo mesmo.

“O Grande Hotel Budapeste” é um conto peculiar e caprichoso, com altas doses de melancolia, porrada e xingamentos. Algo muito fora do padrão de Wes Anderson. O lendário concierge Gustave, vivido por Ralph Fiennes, é um personagem memorável, sua dobradinha com Zero, o mensageiro, é algo maravilhoso de se ver. Entre as histórias vividas pelos dois, estão o roubo de um famoso quadro renascentista, a batalha por uma fortuna de uma família e mudanças que atingiram a Europa durante a primeira metade do século XX.

As várias participações especiais no filme não distraem e só depois de sair do mundo magnificamente criado por Anderson que você dará conta que várias celebridades passaram pela telona apenas para dizer “oi”.

Ambientado na ficcional república europeia de Zubrowka, na década de 1930, o longa é uma divertida mistura de comédia farsesca, drama metalinguístico e suspense kitsch, que adiciona novos elementos aventurescos aos ingredientes que tornaram Anderson famoso.

O universo que envolve o filme exige um bom nível de atenção do espectador. A principal referência de Wes Anderson neste projeto foi Stefan Zweig, um célebre escritor vienense. Aliás, a obra é livremente inspirada nos contos de Zweig. “O Grande Hotel Budapeste” possui características em comum com o trabalho de Stefan Zweig: a rapidez e um senso refinado das nuances que separa a comédia da tragédia.

Com um roteiro primorosamente desenvolvido, “O Grande Hotel Budapeste” vem colecionando ótimas críticas por onde passou. Com uma direção brilhante, Anderson constrói um universo de seu próprio e fértil imaginário através de uma trama que encanta por seu tom de fábula, totalmente lúdico. Divertidíssimo do início ao fim, o filme apresenta um humor de excelente bom gosto, até mesmo ingênuo em alguns momentos. Sem contar as cores saturadas que dão um estilo único ao longa. Já os cenários são muito ricos e extremamente detalhados, chegando a um nível de TOC, outra marca registrada do já lendário diretor Wes Anderson. Esse é um belíssimo filme que, apesar de toda sua grandeza, não deixa de emocionar e divertir.

Com dedos perdidos, gatos mortos e bolos deliciosos, esse filme tem todos os ingredientes para ser inesquecível. Temos sorte de sermos agraciados por um filme com tantos detalhes no design, que transborda originalidade, com um texto inteligente e recheado de humor negro.

Nota: 5 Stars (5 / 5)

Não deixe de conferir as outras partes dessa matéria:

Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 01 – Sniper Americano e Foxcatcher

Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 03 – Selma e Whiplash

Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 04 – Boyhood e Birdman

Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 05 – A Teoria de Tudo e O Conto da Princesa Kaguya

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Por enquanto é só e até mais!

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