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Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 05 – A Teoria de Tudo e O Conto da Princesa Kaguya

by on fevereiro 6, 2015
 

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Finalmente! Chegou a parte final de nosso especial do Oscar 2015! Inicialmente seriam apenas os filmes que participam da categoria de Melhor Filme, entretanto Foxcatcher acabou entrando nas avaliações e eu percebi que já havíamos avaliado quase todos concorrentes da categoria de Melhor Animação ao longo de 2014. Só faltava O Conto da Princesa Kaguya. Não mais. Então, sem mais delongas, as análises de A Teoria de Tudo e O Conto da Princesa Kaguya:

A Teoria de Tudo

O tema do Oscar esse ano pelo visto são as biografias. E biografias de sucesso são aquelas que falam de superação. E quer uma história mais focada em superar os limites do que a de Stephen Hawking? O longa é (levemente) baseado no livro de Jane Wilde Hawking, que conta a história dessa educadora e sua vida com o famoso físico teórico. No filme vemos como o jovem Stephen Hawking (interpretado por Eddie Redmayne) fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide (vivida por Felicity Jones). Além disso, vemos o drama de Stephen Hawking de ter de viver com uma doença motora degenerativa, a esclerose lateral amiotrófica (ELA ou doença de Lou Gehrig), algo presente na vida do físico desde quando ele tinha apenas 21 anos. Essa doença acabou por tirar os movimentos do corpo e a fala de Hawking, porém nunca o impediu de descobrir fatos incríveis sobre o universo.

A interpretação de Redmayne como Hawking é extremamente competente e assombrosa, mais do que justifica a indicação do jovem ao prêmio de Melhor Ator no Oscar 2015. Contudo, o roteiro de Anthony McCarten simplifica demais a biografia escrita por Jane Hawking e muda o ponto de vista da história, que era o da mulher do físico, para o próprio. Apesar de ser compreensível colocar Stephen Hawking como protagonista, isso tira a profundidade de alguns temas polêmicos. Não é mostrado quase nada do desprezo da família Hawking por Jane, vemos muito pouco das dificuldades do começo do relacionamento, como o gênio dirigindo ensandecido pela estrada ou menosprezando a opinião alheia… Sem contar que é tudo extremamente romantizado, deixando o distanciamento que ocorre entre os dois apenas como consequência da doença, algo que está longe de ser o único motivo.

A Teoria de Tudo recorre muito para montagens de filmes caseiros para mostrar a proximidade entre Jane e Hawking. Inclusive usando um filtro brega de filme antigo nesses momentos entre os Hawkings. Essas “sequências caseiras” são onde vemos mais a relação deles com os filhos. Aliás, a cria de Jane e Stephen ficam totalmente em segundo plano no longa. Outra coisa um tanto irritante nesse filme é que o lado científico é mostrado de maneira simplista demais, quase mágica. Desse modo, era melhor focar apenas nos relacionamentos, que é o foco do livro.

A atriz Felicity Jones faz milagres ao tirar algo do nada que Jane Hawking virou no filme. Ela é uma mulher que vai diminuindo no decorrer do longa, e sua dor por não fazer parte do mundo cientifico de Stephen Hawking, de pouco poder ajudar na condição do marido ou de não compartilhar a visão religiosa do mesmo, são deixadas de lado. Stephen Hawking é uma mente extraordinária, um exemplo de superação e uma pessoa única. Mas essa cinebiografia não mostra nenhum tom de cinza dessa pessoa, deixando-o perfeito demais, uma vítima do destino, que supera qualquer obstáculo quase sem titubear. Claro que ele é forte, porém ver um lado mais sombrio do gênio teria sido interessante. Faltou aprofundar na complexidade dessa figura fascinante.

É um filme com grandes protagonistas, com um tema fantástico, que entretanto não se arrisca. A Teoria de Tudo faz tudo de maneira didática, simplificada e de um modo muito idealizado, super hollywoodiano.

Vale ver pelas grandes atuações, principalmente a de Eddie Redmayne que se transforma na tela tanto na atitude, quanto fisicamente. Mas se você quer ver um longa realmente digno de Stephen Hawking, veja o filme Hawking (2004) da BBC, com o grande Benedict Cumberbatch. É uma obra mais sincera, cientifica e menos manipulativa.

Só para reforçar, muitas pessoas adoraram esse filme apenas pela beleza da interpretação de Redmayne, mas esquecem de olhar para as ineficiências do roteiro. Ele tem um caráter episódico na narrativa, saltando de um evento para outro, sem mais, nem menos, tirando um bocado do peso e do impacto do drama e das dificuldades. Não é uma obra que seja digna da atenção que tem recebido, por mais que o ator principal mereça todos os destaques. E o cineasta James Marsh é um ótimo diretor de documentários, como o ótimo O Equilibrista de 2008 demonstra, mas erra a mão no drama, colocando o filme todo nas costas de seus protagonistas e deixando de aprofundar nos demais personagens. A Teoria de Tudo é uma cinebiografia bem autoajuda e que parece querer santificar o Stephen Hawking.

Mas ei, Hawking adorou o filme e até chorou durante a sessão da estreia do longa. Então, tudo é relativo. E acho, só acho, que a opinião dele conta mais que a minha.

Nota: 3 Stars (3 / 5)

O Conto da Princesa Kaguya

Este longa animado é baseado em um popular conto japonês, ” O Conto do Cortador de Bambu” – o mais antigo e conhecido conto do Japão. Na referida lenda, um lenhador de bambu encontra um minúsculo bebê dentro de um tronco de bambu brilhante e toma-o como seu. Esse bebê é Kaguya. Passado o tempo, ela se transforma em uma bela jovem que passa a ser cobiçada por 5 nobres, dentre eles, o próprio Imperador do Japão. Porém a jovem não ama nenhum desses pretendentes. A moça envia esses concorrentes por seu afeto em tarefas aparentemente impossíveis, para tentar evitar o casamento com um estranho que não ama. Porém, Kaguya terá que enfrentar seu destino e a punição por suas escolhas. É uma magnífica animação criada através de técnicas convencionais. Sim, tudo foi pintado e desenhado em papel em um primeiro momento e só depois foi pós-produzido em computadores. É um desenho de encher os olhos.

Com 80 anos, o diretor japonês Isao Takahata fez nome no meio da animação dirigindo belas obras como Túmulo dos Vagalumes e PomPoko – A Grande Batalha dos Guaxinins. Entretanto, é com O Conto da Princesa Kaguya que ele realmente domina por completo a arte da animação. Esse perfeccionista co-fundador dos Studio Ghibli (famoso por ser a “casa” do grande Hayao Miyazaki) utiliza-se de cores nos tons pasteis, com os desenhos lembrando algo feito em carvão vegetal. Isao Takahata mostra nessa obra um minimalismo pictórico, é algo magistral, que passa simplicidade e complexidade ao mesmo tempo. Só vendo para entender.

Apesar de um começo simples e feliz, logo a história se transforma num pesadelo patriarcal. A jovem e bela Kaguya, que cresce mais rápido do que os outros humanos, logo é transformada numa princesa, e devido a seus inúmeros talentos e beleza sem igual, é disputada como um prêmio por vários pretendentes. O longa mostra a vontade de Kaguya de ser ela mesma, ao mesmo tempo que ela deve manter suas obrigações com a família e as convenções sociais. E para reforçar os padrões da sociedade, o pai realmente acredita que faz tudo para a felicidade da filha, apesar de nunca perguntar o que ela realmente quer.

Kaguya é uma personagem encantadora e esperta. O humor do filme floresce principalmente na parte em que ela bola desafios praticamente impossíveis para seus pretendentes. E o ponto forte de O Conto da Princesa Kaguya com certeza é a relação da jovem e seus pais. As vezes a obra parece se perder um pouco em sua narrativa, mas esses desvios não deixam ser divertidos e interessantes. O clímax do filme aparece meio que do nada, e poderia ser mais desenvolvido. Com certeza não tem um ritmo muito convencional, contudo não tira o peso dramático e emocionante dos momentos finais do longa.

Mesmo se você tiver dificuldades com as idiossincrasias e costumes japoneses, porque acredite, esse é um filme mergulhado na cultura japonesa, a beleza do filme compensa. O diretor Isao Takahata traz questionamentos sobre os valores dessa cultura oriental, e como a natureza e o campo são importantes para a vida feliz dos japoneses. Outro elemento impressionante é o desenvolvimento de Kaguya. A sequência dela crescendo é a melhor demonstração de amadurecimento de um ser humano em qualquer mídia. Tudo é feito com sensibilidade e cuidado comoventes.

Se tiver a chance veja no áudio original, não desprezando o trabalho dos dubladores nacionais, mas os artistas originais sabem dar o peso necessário ao filme e entendem mais a importância e beleza desse conto. É uma obra emocionante, com um final de quebrar o coração. Não é um longa para todo mundo, já que é necessário ter mente aberta para culturas diferentes para ver esse filme. De qualquer modo, a obra passa importantes mensagens, seja a de que todo ato tem suas consequências ou que é importante ir atrás do que deseja, antes que seja tarde demais. O Conto da Princesa Kaguya é cheio de emoção sincera e irá encantar os espectadores de todas as idades. É disparado a melhor animação desse Oscar e um dos filmes de animação mais lindos da última década.

Nota: 5 Stars (5 / 5)

Ps.: Sim fãs de Naruto, é nessa lenda que a vilã final da série foi baseada. Pois é.

 Não deixe de conferir as outras partes dessa matéria:

Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 01 – Sniper Americano e Foxcatcher

Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 02 – O Jogo da Imitação e O Grande Hotel Budapeste

Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 03 – Selma e Whiplash

Oscar 2015 – Críticas dos concorrentes – Parte 04 – Boyhood e Birdman

Crítica – Como Treinar o Seu Dragão 2

Crítica – Os Boxtrolls

Crítica – Operação Big Hero

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